por Barranco Ateliê02/03/2026 - 13/03/2026
Faculdade de Artes Visuais
Universidade Federal de Goiás (UFG).
Goiânia - GO.
Parthenon é a primeira exposição coletiva dedicada ao intercâmbio dos artistas Valdson Ramos, Joardo Filho e Talles Lopes no contexto do Barranco Ateliê, espaço independente de arte localizado em Anápolis - GO.
Aberta para visitação na Galeria da FAV a partir de 02 de março, a mostra propõe um recorte da produção dos artistas que se conectam através de questões como autoria, arquitetura e política, apontando, ao mesmo tempo, como esses campos fundamentam as recentes experimentações coletivas do grupo.
Parthenon é um projeto apresentado na programação do Claque Cultural, uma realização do Governo de Goiás e Sesc Goiás.
Adentrando a exposição, ao lado direito, se vê a obra “Parthenon Center” (2019), de Joardo Filho, que apropria-se de um anúncio da construtora Provalle na Revista Veja (1976) sobre o icônico edifício-garagem de mesmo nome construído no centro de Goiânia - GO, na década de 1970. A instalação propõe a distribuição da peça gráfica ao público, ação somada à reprodução de trechos do áudio da dublagem em português de documentário do Discovery Channel (2004) sobre a Grécia Antiga e o Partenon da Acrópole de Atenas. Logo, o trabalho elabora uma recirculação desses conteúdos de maneira a reativar, de forma crítica, certa simbologia monumental forjada para o Centro-Oeste brasileiro.
Ainda na entrada, mas ao lado esquerdo, o artista Joardo Filho apresenta o vídeo intitulado "Dia da Independência” (2026), trabalho que exibe em super câmera lenta um trecho do filme Independence Day (1996) do cineasta Roland Emmerich. A obra apresenta as cenas em que a Casa Branca e o Capitólio, a sede da presidência e a sede do poder legislativo norte-americano, respectivamente, são explodidos durante uma invasão alienígena na Terra. A velocidade extremamente lenta do vídeo interrompe a instantaneidade das cenas de explosões típicas de Hollywood. Ao mesmo tempo, o enquadramento fechado do vídeo não permite identificar facilmente os edifícios oficiais do governo americano, fazendo com que essas arquiteturas possam ser confundidas com os inúmeros edifícios neoclássicos espalhados desde a América do Norte até o interior do Brasil.
Pode-se ver, ainda, um conjunto de estudos em aquarela e nanquim da instalação “Excedente Monumental” (2020), do artista Talles Lopes. A instalação investiga como a arquitetura anônima de casas de todo Brasil se apropriaram de elementos arquitetônicos modernistas, especificamente a forma da coluna do Palácio da Alvorada (Residência presidencial projetada por Oscar Niemeyer em Brasília, 1958). Resultante desses estudos, a instalação apresenta cinco dessas colunas em escala real usando materiais frágeis como o isopor e argamassa, elementos que sugerem um questionamento da firmeza material e ideológica do projeto de modernidade representado por essa arquitetura.
No lado oposto da sala, pode-se observar uma fotografia na parede e uma vitrine com diferentes álbuns de fotos analógicas, datadas dos anos 1990 e início dos anos 2000. As imagens documentam o trabalho de Valdson Ramos desenvolvido por mais de 30 anos em paralelo à sua prática artística, tratando-se do ofício do artista na decoração de lojas maçônicas em diferentes locais de Goiás e Tocantins. Tal trabalho envolve diferentes materiais e linguagens. Ramos projeta e executa elementos como abóbadas de gesso, colunas neoclássicas não-estruturais, painéis com motivos egípcios em relevo, mas, principalmente, a pintura de painéis de grandes dimensões representando arquiteturas seculares icônicas como o Parthenon.
O conjunto de fotografias é complementado por quatro fôrmas de fibra de vidro apresentadas na parede ao lado. Em seu uso funcional, cada um desses moldes é conectado ao outro, criando uma única fôrma que é usada para produzir tiragens em gesso de um capitel coríntio criado por Valdson Ramos. A arquitetura de não-arquiteto idealizada pelo artista está inserida num contexto análogo: o autodidatismo de Ramos foi elaborado numa conjuntura própria do Centro-Oeste do Brasil, quando a região contava com pouquíssimos centros de ensino de arte e/ou arquitetura. Nessa perspectiva, sua prática faz pensar sobre os muitos grupos alheios aos processos de modernização, sintetizados nos espaços planificados pelos arquitetos, mas que, ainda assim, se voluntariaram à tarefa de dar forma e visualidade à paisagem construída nesse território.
Ao centro do espaço, encontra-se a instalação site-specific "Greco-Goiano” (2025), uma réplica da coluna da casa do cantor sertanejo Gusttavo Lima, pensada originalmente para uma das salas do Centro Cultural da UFG, quando a peça continha 6,20m de altura, ocupando o espaço do chão ao teto. Agora, na Galeria da FAV, o “Greco-Goiano” assume as condicionantes arquitetônicas da sala de exposição. A coluna tem sua altura reduzida e é montada dissimulando uma sustentação das vigas de concreto do edifício. Cortada com serrote, as partes excedentes da coluna são distribuídas no chão, sendo possível observar seu miolo oco de isopor e a espessura do revestimento de gesso.
A coluna greco-goiana opera arquitetonicamente de maneira equivalente aos muitos neoclassicismo de hoje, chamados de pós-moderno, kitsch ou pastiche histórico. Essas arquiteturas são conhecidas pelo resgate anacrônico de estilos históricos, somados a uma certa negligência do funcionalismo arquitetônico típico das vanguardas modernas. Na exposição, a coluna leva ao limite o sentido sugerido na casa do cantor Gusttavo Lima: a dominância de uma demanda simbólica sobre uma razão funcional.
Os ambientes carregados de referências históricas de períodos e territórios diferentes, tanto na residência de Gusttavo Lima como nos espaços elaborados por Ramos, podem aqui nos lembrar do clássico livro “Aprendendo com Las Vegas” (1972), cuja reflexão trata do consumo massivo de signos na arquitetura pós-moderna, tal qual o Greco-Goiano, como sintomas do capitalismo tardio e da cultura de massas. No entanto, o livro também convoca um pensamento sobre como a adesão popular a essa arquitetura faz dela algo como um “pós-modernismo populista” ou “vernáculo comercial”: massiva, mas acessível e democrática, num contraponto aos juízos de gosto pretensamente elitistas que predominam entre os arquitetos e a academia.
Como observa o curador Paulo Duarte-Feitoza, o resgate da arquitetura clássica na forma de pastiche é “frequentemente alçado pelos conservadores como símbolo de ordem, hierarquia e grandeza”. Nesse cenário, a imagem da casa de Gusttavo Lima surge não somente “associada à ostentação e a valores tradicionalistas” do cantor, mas também criticada pelas problemáticas relacionadas à sua agenda política, como a conexão da música sertaneja e do agronegócio com o esgotamento climático, os conflitos rurais e a concentração fundiária.
Em “Parthenon”, a coluna greco-goiana, o pilar dos valores neo-conservadores, ressurge sustentando a cobertura de concreto da Galeria da FAV, edifício cujo projeto filia-se aos princípios da arquitetura moderna brasileira, a mesma que na primeira metade do século passado sintetizou o regime de colonização modernizante do estado brasileiro, que, dentre outros objetivos, visava a expansão das fronteiras agrícolas sobre o interior do país. Aqui, se quisermos, “Parthenon” nos faz pensar sobre uma falsa dicotomia entre essas duas temporalidades e linguagens arquitetônicas, bem como sobre as diferentes linguagens de uma mesma lógica concebida como padrão para o Centro-Oeste do Brasil.
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